segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Regojizos busísticos

Dizem que brasileiro lê pouco. Dizem que francês lê muito. Retrato fiel desta constatação é que, nos metrôs parisienses, apertadas entre sobretudos e bolsas, surgem dezenas de mãos segurando livros cuja leitura se inicia e se completa exclusivamente de uma estação a outra.

No Brasil, tal cena já é bem mais rara. Primeiramente, porque faltariam metrôs para que ela se repetisse fidedignamente. Segundo, porque brasileiro carrega, quando vai trabalhar, um kit-trânsito que não dá espaço para nenhum item literário.

Sabendo a que horas sai de casa, mas nunca sabendo quando chega, ao passageiro destes bondões brasílicos resta se precaver contra atrasos causados por enchentes, alagamentos, quedas de barreira, aberturas de crateras e toda sorte de infortúnios causados por intempéries. Isso quando não precisa se preparar para eventuais arrastões, sequestros de ônibus, barreiras incendiárias, bloqueios de túneis e trincheiras.

Na sacola do passageiro-vale-transporte é mais importante colocar escova de dente, pente para cabelo, desodorante, sabonete, muda de roupa, casaco de frio, guarda-chuva, água e lanchinho, remédio para dor de cabeça, lenços de papel, papel higiênico, lixa de unha, absorvente íntimo, lenço umedecido que qualquer livro. Vai assim que, se sobrar algum espaço na bolsa, o brasileiro prefere preenchê-lo com o carregador de celular. Pior que ficar sem poder chegar em casa é ficar sem poder dar notícias.

Logo, dizer que francês lê tanto que lê até no metrô é desconhecer o aperto da bolsa de nossos leitores quando andam de busu.

Mas há exceções regojizantes.

Dia destes, eu tinha pegado um ônibus para ir a minha livraria preferida em Curitiba, a Mahatma. Saí de lá com três volumes, levados a duras penas dentro de uma sacola que segurava no outro braço, já que o direito fica sempre encarregado de minha bolsa e seus inúmeros apetrechos.

Eu queria começar a ler um dos livros que tinha comprado ali mesmo no ponto, em tal ansiedade estava para saber o destino da loja que, na Paris atual, herdava o nome da mítica Shakespeare & Co. do entreguerras. Figuras literárias como James Joyce, Sylvia Beach, Hemingway e Gertrude Stein ecoavam em meus pensamentos e eu queria estar imersa num mundo em que todos lessem e discutissem literatura com o mesmo ardor com que discutem sobre suas doenças e remédios.

Mas a imagem das pessoas que esperavam no ponto comigo era o contrário de uma roda literária: pessoas com as bochechas vermelhas, esbaforindo sob o sol da tarde, carregando sacolinhas de supermercado pesadas e cheias de tudo, apertadas em calças jeans esmaecidas, vestindo uma camiseta suada por dentro de cuja gola passavam os fios do fone de ouvido do celular. Pessoas preocupadas com o crediário, com a fila do SUS, com o tratamento dos dentes do filho.

Foi quando passei pela catraca cumprimentando o cobrador e notei que ele lia. Sim, ele lia. Olhou-me rapidamente, apenas verificando como eu pagaria a passagem, e voltou seus olhos para o livro. Nas outras paradas, ele agia sempre com a mesma presteza em atender o passageiro que entrava para voltar imediatamente à leitura de seu livro.

Fiquei embevecida. Eu nunca tinha visto um cobrador lendo. Aquilo era um sinal de que eu, amante de livros, não estava afinal sozinha nos busus da vida. Quase saquei o livro da minha sacola e lhe dei, para que ele soubesse que houve em Paris pessoas que tornavam suas vidas mais belas por meio da literatura. Entretanto, contive-me: ele poderia estar lendo algo para prestar concurso e isto cairia como um balde de água fria.

Na bolsa do brasileiro sempre haverá espaço para algo que lhe acene com um trabalho mais bem remunerado.

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