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sábado, 14 de fevereiro de 2015

Sedentarismo ecológico

Fazer exercícios é prejudicial ao meio-ambiente: toma-se mais banho, lavam-se mais roupas.

 

escrito por Mayra Corrêa e Castro © 2015

quarta-feira, 4 de julho de 2012

A decisão complexa do apoio.

A Sociedade Vegetariana Brasileira conseguiu, nas suas palavras, “um apoio de peso” para a campanha Segunda Sem Carne: a chefe da Casa Civil, a ministra Gleisi Hoffmann.

A ministra, que é de Curitiba, já era vegetariana, mas não fazia alarde de sua dieta. Faz pouco mais de um ano que ela saiu da cidade para ser empossada em Brasília, e nem antes, nem durante – apenas agora, depois – resolveu fazer bandeira com uma causa que lhe é particular.

Nós, vegetarianos, estamos todos comemorando. Ou mais ou menos eu, porque o diacho da contemporaneidade é que tudo é complexo – nada, nunca, tem apenas prós ou apenas contras, mas prós e contras na mesma medida.

Quando Dilma era a ministra-chefe da Casa Civil, a Casa Civil era alguma coisa de importante. Que é a Casa Civil agora? Todo mundo sabe que entregar a Casa Civil a Gleisi foi um prêmio de consolação: o PAC tinha passado para a pasta do Ministério do Planejamento e o marido de Gleisi, contra expectativas, tinha ficado apenas com o Ministério das Comunicações.

É legal termos uma ministra vegetariana apoiando a Segunda Sem Carne. Decerto. Mas ela, na Casa Civil, é quase uma primeira-dama. Em termos de primeiras-damas, o Brasil – com exceção de D. Ruth Cardoso – nunca ganhou muito com elas.

As primeiras-damas, por aqui, sempre chamam mais atenção pelos seus disparates e futilidades – e temo que seu apoio à campanha, aos olhos de 91% dos brasileiros não-vegetarianos, soe esdrúxula.

Por outro lado, congratular a adesão de Gleisi é, indiretamente, bater palmas à política ambiental do PT. A Segunda Sem Carne é uma campanha essencialmente ecológica. Ela foi inspirada na campanha Meat Free Mondays de Paul McCartney.

As pessoas que têm aderido à campanha são, em sua maior parte, celebridades descomprometidas com política. As implicações políticas da campanha são graves e parece que os políticos preferem não se comprometer com elas.

Em Curitiba, quando a Segunda Sem Carne foi lançada dentro do Mercado Municipal, a prefeitura recebeu protestos dos açouges do Mercado. Isso quase levou a campanha à pique. Imagine então o que significa um político de “expressão” nacional apoiar a campanha? Ao invés de varejistas da carne, virão os importantes frigoríficos que apoiaram a eleição de Dilma, como o JBS, criticá-los.

A Segunda Sem Carne quer mostrar uma coisa só: parar de comer carne é a única solúvel viável, de médio prazo (no curto não há nenhuma), para conter a derrocada do meio-ambiente. Ela traz pras mãos dos cidadãos a decisão de fazer alguma coisa, já que, quando protestamos, o governo não nos ouve (ou Dilma teria vetado a totalidade do Código Florestal). 

O receio é de que a camiseta da Segunda Sem Carne empunhada na foto de Gleisi esvazie a campanha do que ela tem de mais forte: a denúncia às políticas ambientais do governo federal que privilegiam latifundiários e grupos frigoríficos em vez da agricultura familiar e orgânica.

Gleisi segurando a camiseta da campanha é, por determinado viés, algo fútil. Transforma a campanha em uma coisa que celebridades fazem – afinal, eles estão sempre apoiando causas sociais porque não têm mais nada de importante pra fazer.

Apoio, apoio mesmo seria Gleisi dizer que é vegetariana e fazer o Brasil conhecer que a Amazônia é desmatada por causa da demanda por pasto e soja para alimentar o gado que financiou a campanha do PT nos últimos 10 anos.

Enquanto um político estiver no poder, segurar uma camiseta é o mínimo mais nefasto a uma causa que ele pode fazer.

escrito por Mayra Corrêa e Castro ® 2012

A minha opinião é só minha e não reflete a opinião da SVB.

sábado, 26 de abril de 2008

Quando aquilo que comemos nos torna grupo minoritário

Eu, meu marido e meus filhos somos vegetarianos há oito anos. Meus filhos, desde que nasceram. Apenas recentemente comecei a ensinar meu menino mais velho, que tem quatro anos, que há pessoas que comem animais. Sempre digo a ele que nós somos "amigos dos animais" e é por isso que não comemos bichinho. Parte desta história ele entende e, evidentemente, porque ainda é muito novo, parte não entende.

Meses atrás, para fazê-lo compreender o que é comer um animal, parei em frente à seção de peixes do Wal-Mart e lhe disse que ali estavam os peixes, mas que estavam mortos, e que era isso que algumas pessoas comiam. Como qualquer criança, ele se assustou - porque a morte é assustadora -, chorou e pediu para ir embora. Suponho que esta imagem tenha ficado gravada no seu inconsciente e que ele a recupere quando começar a se dar motivos para continuar sendo vegetariano.

Mas, além do vegetarianismo, existem outros cuidados com a alimentação de meus filhos: eles comem alimentos integrais, quase nada de açúcar branco, pouco açúcar mascavo, comem mel, pão integral, algum arroz integral, não comem fritura, não comem normalmente óleo de cozinha refinado, não comem margarina, não comem industrializados com gordura trans; aliás, comem pouca comida industrializada, alimentando-se mais de vegetais e frutas frescas.

Por conta de nossa dieta, costumamos enxergar o que é ou não nutritivo de maneira bem diferente da maior parte das pessoas cuja dieta seja onívora. Por exemplo, não achamos que comer frango grelhado seja saudável, muito menos que bife, arroz, feijão, batata e salada o seja também. Não achamos margarina saudável, nem leite de vaca. Para nós, um bolo gostoso é um bolo vegano, feito com farinha integral e açúcar mascavo, meio amarguinho. E se as crianças passam um dia comendo apenas "besteirinhas" na rua (sim, isso acontece também), chegando em casa não queremos que eles tomem leite, mas que comam qualquer fruta crua ou um suco fresco.

E ainda temos uma preocupação com relação ao consumo de certos alimentos funcionais, como óleo de coco ou babaçu, óleo de linhaça e óleo de gergelim. Castanhas, tofu, a própria linhaça. Os grãos, como lentilha, ervilha, grão-de-bico, feijão. Fora os verdes-escuros.

Por todo este zelo - alguns diriam, por toda esta chatice - comer fora de casa é bem difícil e a ida dos meninos pra escolinha - onde convivem com os amiguinhos que comem carne - está rendendendo alguns malabarismos. Meus filhos, entre seus amiguinhos, são "minoria" e, como tal, precisamos enfrentar alguns preconceitos e desinformações. Meus meninos precisam conviver com o que as pessoas acham natural, normal e eu preciso explicar a eles que não é quando chegam em casa.

Isso ocorre, por exemplo, nas aulas de culinária. Dia destes, meu menino mais velho chegou com uma bisnaguinha de cachorro-quente. Estava todo feliz que tinha feito cachorro-quente na escola. "Mas o que é cachorro-quente, mamãe?" Felizmente, há salsicha de soja pra eu preparar um cachorro-quente em casa e lhe mostrar o que é que seus amiguinhos comeram na aula de culinária que ele não pôde comer. Mas como eu poderia ter pedido à professora para não dar a bisnaguinha cheia de gordura vegetal trans? E como eu poderia explicar ao colégio que não quero que meu filho manuseie a salsicha, mesmo que não a coma, porque não quero que ele ache divertido brincar de cozinhar um animal morto?

Festinha de aniverário também é problema. Além das crianças comerem bolo (açúcar e margarina), comem bolinha de queijo. Se ainda as professoras controlam a quantidade de bolo dada às crianças - já que existe um consenso de que açúcar não faz bem -, como explicar a elas que na maior parte das bolinhas de queijo vai caldo de carne e que por isso meu filho só come bolinha de queijo em casa ou quando eu encomendo a alguma confeitaria de minha confiança? Naquele dia, eu só soube que ele comeu bolinha de queijo quando ele chegou em casa...

E chegou em casa com uma saquinho cheio de doces, cheio de balas de morango. Algumas ele já tinha comido na escolinha e elas continham corantes feitos de insetos e corantes que induzem à hiperatividade. "Será que ninguém sabe disso? - eu perguntei ao meu marido, jogando fora algumas balas do saquinho de meu filho.

E vem outra festinha de escola e fico sabendo - apenas por acaso - que a mãe da aniversariante trouxe gelatina. Mas eu poderia nem ter sabido e daí não teria explicado à professora que a gelatina é feita de animal. Mas e as outras gelatinas que ele comeu e eu nem soube?

Finalmente, as crianças voltam de casa com a lembrancinha de Páscoa. Além do chocolate, que não contém bons ingredientes, que não é amargo, que contém gordura trans - voltam com a missão de descreverem o que a Páscoa significa pra elas. Mas não significa nada além de comer doces, porque não seguimos nenhuma religião cristã. Me pergunto por que as pessoas não pensam nisso, de que há pessoas diferentes? E a razão é que não pensamos nas minorias. Aliás, não pensamos em quase nada que não tenha como referência nós mesmos.

Quando eu era criança, estudando em colégio católico, ensinavam-nos muito sobre o preconceito contra negros, mulheres, idosos e portadores de deficiência. Mas nunca tinham nos falado de preconceito contra pessoas com dietas minoritárias nem com crenças laicas. Aliás, nem havia este termo - dietas minoritárias. O meio-ambiente era melhor, a alimentação não era tão aditivada e pronta e nossa saúde era mais forte.

Creio que hoje, quando o vegetarianismo aparece como uma das mais importantes ações ecológicas viáveis para o planeta Terra - precisamos esclarecer amplamente as pessoas sobre uma dieta sem carne. Comer carne não deveria mais ser encarado como algo natural, assim como deixou de ser natural a escravidão de negros e as mulheres não poderem votar.

Gostaria que, numa próxima festa de aniversário na escola, houvesse a preocupação de oferecer opção vegetariana e vegana às crianças, tanto quanto hoje se oferece atendimento prioritário a um idoso, gestante ou cadeirante. Por uma questão de gentileza, respeito pelas diferenças e consciência ambiental.

Por amor à vida.

Abraços veggies!

Mayra C. Castro

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Ô, terráqueo, apenas não os comer, não é suficiente.

Dias desses, com uma amiga amantíssima, discutíamos sobre direitos dos animais e, porque eu não tenho um bichinho de estimação em casa, ela me disse que, afinal, eu não era uma protetora deles. Minha reação imediata foi lhe dizer:

- Epa, péra aí, é claro que sou protetora, eu não os como!

Minha amiga riu e encontrou então um novo termo para definir gente que nem eu, que é vegetariana, mas não se engaja de outra forma na luta em prol dos animais.

Ainda fiquei matutando sobre esta nossa conversa e pensando o que eu poderia dizer dos zilhões de pessoas que têm animais de estimação em casa e comem carne... Bem, deixa pra lá. Deletei o assunto e fui fazer minhas coisas do dia-a-dia.

Na vida, não existem coincidências, apenas sincronias. Da única leitura que fiz de Paulo Coelho em minha vida, gravou-se em minha memória esta frase, que resume o tão alardeado Segredo: "Quando você quer, o universo conspira."

Embora eu tenha deletado aquela conversa sobre proteção dos direitos dos animais, certamente o universo a captou - e como eu não a concluí, o danado deu um jeito de me fazer tropeçar com ela de novo. O ditado é que "quando você precisa, o karma conspira."

A conspiração veio de um encontro, desta vez com outra amiga, uma nutricionista vegana com quem eu estava fechando parcerias para meu estúdio de yoga. Por estas razões de internet e Orkut, eu conversava com ela, ao vivo e pela primeira vez, como se fosse uma velha conhecida e ela me falava das formas de vegetarianismo que não pratico, como o veganismo, o crudivorismo e a alimentação viva. Eu a ouvia e era como se estivesse ouvindo falar pela primeira vez de um universo paralelo, eu que já me sentia tão à margem do comum por não comer carne...

Esta nutricionista realiza um trabalho voluntário na seção Curitiba da Sociedade Vegetariana Brasileira. Resolvi fuçar mais a fundo este assunto e me inscrevi no Yahoo-Group da SVB-Curitiba. Aí, choveu email, choveram conspirações. Para minha surpresa, ninguém na lista falava sobre a alimentação vegetariana em si, mas falava sobre proibição de aluguel de cãos de guarda, arrecadação de ração para abrigo de cães e gatos, sobre co-habitação de chupins em ninhos de joões-de-barros e, enfim, sobre o link do filme Terráqueos.

Eu já tinha ouvido falar sobre este filme, sobretudo que é forte, mas não tinha ainda me aventurado a assisti-lo porque tenho o estômago fraco e não consigo sequer ver Silêncio dos Inocentes inteiro. Mas guardei o link na minha caixa de email, porque sempre pinta um aluno ou outro querendo referências sobre vegetarianismo e este é um filme tão comentado que certamente poderia indicá-lo.

Vê como são as coisas? Deixei de novo o assunto pra lá, o tal do direito dos animais...

Mas o universo é incansável e me fez tropeçar nele de novo. Escute só:

No dia seguinte, aquela mesma amiga minha, a amantíssima, me enviou um link pra um destes abaixo-assinados eletrônicos apoiando uma lei que visava proibir, em Curitiba, o aluguel de cães de guarda. Como eu nunca tinha parado para refletir sobre o assunto, candidamente fiz minha lição de casa e perguntei a ela - defensora da lei - por quê sim?

Ah, foi o que bastou. Ela me listou uma penca de situações pelas quais os cães de aluguel passam. Nem tinha terminado de ler todas e resolvi que à noite eu assistiria ao Terráqueos.

Era domingo à tarde, meus meninos brincavam com o pai na sala de TV. Eu enfiei os fones de ouvido, liguei o micro e comecei a ver o filme. Não sei quanto tempo levou, mas pareceu infindável a sucessão de crueldades que a humaninade impinge aos animais - pelo que dependemos deles para alimentação, companhia, vestuário, entretenimento e pesquisa científica.

Fechei os olhos para algumas cenas, mas me forcei a ver todas as gargantas cortadas, de todas as vacas, e de todos os frangos - para nunca mais esquecê-las. Vi cada choque tomado por um bichinho preso em gaiola, cada mordida que os porcos infligiam uns aos outros canibalizando-se, vi cada espancamento em elefantes de circo e também assisti, para minha comoção maior, o esquema da produção do couro naquela que deveria ser a nação Gopala, a Índia, berço do yoga, que é, segundo o filme, a maior fornecedora de couro do mundo. Estarrecedor.

Por isso o tom sério deste post. Não há como ser indiferente aos direitos dos animais depois de assistir aos Terráqueos. Ou há, até que a Terra peça sua conta. A Terra não conspira - não, pelo menos, da maneira como conspiramos nós. A Terra apenas reage.

Assista ao filme. Proteja os animais. Tente comer menos carne. Não coma nenhuma. Torne-se vegetariano. Ou, pelo menos, aproxime-de de algum que conheça e olhe para suas razões sem preconceitos. Grandes gênios da atualidade e de outros tempos foram / são vegetarianos. Não deve ter sido à toa. Afinal, por que um gênio - se é tão inteligente - colocaria em risco sua saúde, afetando assim sua genialidade - deixando de comer carne?!

A segunda amiga desta história, a nutricionista, definiu muito bem o alarmante apelo de Terráqueos:

"Em algum momento de seu desenvolvimento, o homo sapiens pode ter tido um salto por começar a ingerir mais proteína vinda da carne. Mas agora, para a sua sobrevivência no planeta Terra, comê-la é que o coloca em risco de extinção."

Obrigada, Alê e Natália, por terem conspirado junto com o universo por mais esta tomada de consciência. Um abraço querido às duas.

Mayra C. Castro

VEJA O FILME TERRÁQUEOS.

Veja a ficha do filme no IMDb.

terraqueos