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terça-feira, 12 de junho de 2012

Tolerância magra.

Não acho que vivamos uma ditadura da beleza. Afinal, feios não são caçados, nem trancafiados. Leio regularmente revistas de moda e sempre fico pasma de ver um monte de modelo feia posando de bonita. Também fico boba de ver editoras de moda bem feinhas bancando as gostosas. Não são delírios do photoshop, porque estas que vejo não ficariam nem mais um pouco menos feias com todo o photoshop disponível.

Acontece que são magras.

A ditadura que vivemos é a da magreza. Gordos, obesos, acimas do peso, cheinhos, fofinhos – estes, sim, estes estão sendo sumariamente perseguidos. Não existe tolerância com pessoas não-magras: elas devem emagrecer ou desaparecer. Nem saudáveis mais se acredita que possam ser: não-magros não devem existir.

Numa destas revistas, li reportagem sobre uma editora de moda não-magra que emagreceu. Fiquei triste. Quero dizer: fiquei alegre por ela, ela queria e conseguiu; mas fiquei triste, pois perdemos uma rebelde. Vi que elogiaram uma vencedora do American Idol porque ela secou. Fiquei feliz por ela, queriam e conseguiram; mas fiquei desapontada, foi mais uma baixa.

Então vem aquele comercial de sabonete elogiando mulheres reais, e nenhuma delas é: todas são magras, ou são não-magras sem barriga. Fico melancólica, porque todas se encaixam.

Aquele ditado que não existe mulher feia, o que existe é mulher sem dinheiro, conhece? Ele está incompleto: uma mulher gorda com dinheiro, jamais a acharão bonita, nem com toda a arrumação do mundo.

Olhe a sua volta e veja o que a mídia de moda faz: ela chama qualquer imbecil de interessante apenas porque a pessoa é magra. Se desenhar roupas ridículas, ela é um stylist interessante. Se desenhar móveis ridículos, ela é um designer interessante. Se  não fizer nada na vida e tiver dinheiro, é uma it-person interessante. Se for não-magra, poderá ser um gênio, nem aparecerá na revista.

Apresentadores de TV também devem ser magros. Suspiro profundamente com o que fizeram àquela dupla e lamento mais o que a dupla fez à já tão combalida auto-estima das pessoas: junto com aqueles que compartilham que médicos são deuses, decretaram que não há estado não-magro saudável e que todos que não emagrecerem vão morrer em breve.

A loucura da magreza é tanta que site de seguro saúde e laboratório de análises clínicas traz calculadora de índice de massa corporal na home page. Parece que um IMC baixo vai nos livrar dos efeitos colaterais de toda esta porcaria que a indústria farmacêutica joga no mercado com anuência da ANVISA e autoridades médicas. Parece que perder peso é a única medicina preventiva, serve mais até que ser feliz. Se é que é possível alguém se achar feliz estando não-magro.

A única moralidade atual é ser magro. É por isso que aceitamos votar em políticos não-magros: porque é fato consumado que a política é o reino da imoralidade. Quando o brasileiro compactuar com a seriedade e a honestidade, nunca mais teremos presidentes cheinhos, pode escrever.

Certa vez eu li a notícia de um curso: “A verdadeira dieta da longevidade é a que faz restrições de calorias.” Me pareceu que minha teoria estivesse errada: não é a magreza nosso algoz. A magreza é apenas o laranja: nossa peçonha é a longevidade. Ninguém mais tem o direito de querer viver pouco. Com pouco, ainda vá lá, admite-se; mas muito.

Escrito por Mayra Corrêa e Castro, uma não-magra manequim 42.

sábado, 26 de abril de 2008

Quando aquilo que comemos nos torna grupo minoritário

Eu, meu marido e meus filhos somos vegetarianos há oito anos. Meus filhos, desde que nasceram. Apenas recentemente comecei a ensinar meu menino mais velho, que tem quatro anos, que há pessoas que comem animais. Sempre digo a ele que nós somos "amigos dos animais" e é por isso que não comemos bichinho. Parte desta história ele entende e, evidentemente, porque ainda é muito novo, parte não entende.

Meses atrás, para fazê-lo compreender o que é comer um animal, parei em frente à seção de peixes do Wal-Mart e lhe disse que ali estavam os peixes, mas que estavam mortos, e que era isso que algumas pessoas comiam. Como qualquer criança, ele se assustou - porque a morte é assustadora -, chorou e pediu para ir embora. Suponho que esta imagem tenha ficado gravada no seu inconsciente e que ele a recupere quando começar a se dar motivos para continuar sendo vegetariano.

Mas, além do vegetarianismo, existem outros cuidados com a alimentação de meus filhos: eles comem alimentos integrais, quase nada de açúcar branco, pouco açúcar mascavo, comem mel, pão integral, algum arroz integral, não comem fritura, não comem normalmente óleo de cozinha refinado, não comem margarina, não comem industrializados com gordura trans; aliás, comem pouca comida industrializada, alimentando-se mais de vegetais e frutas frescas.

Por conta de nossa dieta, costumamos enxergar o que é ou não nutritivo de maneira bem diferente da maior parte das pessoas cuja dieta seja onívora. Por exemplo, não achamos que comer frango grelhado seja saudável, muito menos que bife, arroz, feijão, batata e salada o seja também. Não achamos margarina saudável, nem leite de vaca. Para nós, um bolo gostoso é um bolo vegano, feito com farinha integral e açúcar mascavo, meio amarguinho. E se as crianças passam um dia comendo apenas "besteirinhas" na rua (sim, isso acontece também), chegando em casa não queremos que eles tomem leite, mas que comam qualquer fruta crua ou um suco fresco.

E ainda temos uma preocupação com relação ao consumo de certos alimentos funcionais, como óleo de coco ou babaçu, óleo de linhaça e óleo de gergelim. Castanhas, tofu, a própria linhaça. Os grãos, como lentilha, ervilha, grão-de-bico, feijão. Fora os verdes-escuros.

Por todo este zelo - alguns diriam, por toda esta chatice - comer fora de casa é bem difícil e a ida dos meninos pra escolinha - onde convivem com os amiguinhos que comem carne - está rendendendo alguns malabarismos. Meus filhos, entre seus amiguinhos, são "minoria" e, como tal, precisamos enfrentar alguns preconceitos e desinformações. Meus meninos precisam conviver com o que as pessoas acham natural, normal e eu preciso explicar a eles que não é quando chegam em casa.

Isso ocorre, por exemplo, nas aulas de culinária. Dia destes, meu menino mais velho chegou com uma bisnaguinha de cachorro-quente. Estava todo feliz que tinha feito cachorro-quente na escola. "Mas o que é cachorro-quente, mamãe?" Felizmente, há salsicha de soja pra eu preparar um cachorro-quente em casa e lhe mostrar o que é que seus amiguinhos comeram na aula de culinária que ele não pôde comer. Mas como eu poderia ter pedido à professora para não dar a bisnaguinha cheia de gordura vegetal trans? E como eu poderia explicar ao colégio que não quero que meu filho manuseie a salsicha, mesmo que não a coma, porque não quero que ele ache divertido brincar de cozinhar um animal morto?

Festinha de aniverário também é problema. Além das crianças comerem bolo (açúcar e margarina), comem bolinha de queijo. Se ainda as professoras controlam a quantidade de bolo dada às crianças - já que existe um consenso de que açúcar não faz bem -, como explicar a elas que na maior parte das bolinhas de queijo vai caldo de carne e que por isso meu filho só come bolinha de queijo em casa ou quando eu encomendo a alguma confeitaria de minha confiança? Naquele dia, eu só soube que ele comeu bolinha de queijo quando ele chegou em casa...

E chegou em casa com uma saquinho cheio de doces, cheio de balas de morango. Algumas ele já tinha comido na escolinha e elas continham corantes feitos de insetos e corantes que induzem à hiperatividade. "Será que ninguém sabe disso? - eu perguntei ao meu marido, jogando fora algumas balas do saquinho de meu filho.

E vem outra festinha de escola e fico sabendo - apenas por acaso - que a mãe da aniversariante trouxe gelatina. Mas eu poderia nem ter sabido e daí não teria explicado à professora que a gelatina é feita de animal. Mas e as outras gelatinas que ele comeu e eu nem soube?

Finalmente, as crianças voltam de casa com a lembrancinha de Páscoa. Além do chocolate, que não contém bons ingredientes, que não é amargo, que contém gordura trans - voltam com a missão de descreverem o que a Páscoa significa pra elas. Mas não significa nada além de comer doces, porque não seguimos nenhuma religião cristã. Me pergunto por que as pessoas não pensam nisso, de que há pessoas diferentes? E a razão é que não pensamos nas minorias. Aliás, não pensamos em quase nada que não tenha como referência nós mesmos.

Quando eu era criança, estudando em colégio católico, ensinavam-nos muito sobre o preconceito contra negros, mulheres, idosos e portadores de deficiência. Mas nunca tinham nos falado de preconceito contra pessoas com dietas minoritárias nem com crenças laicas. Aliás, nem havia este termo - dietas minoritárias. O meio-ambiente era melhor, a alimentação não era tão aditivada e pronta e nossa saúde era mais forte.

Creio que hoje, quando o vegetarianismo aparece como uma das mais importantes ações ecológicas viáveis para o planeta Terra - precisamos esclarecer amplamente as pessoas sobre uma dieta sem carne. Comer carne não deveria mais ser encarado como algo natural, assim como deixou de ser natural a escravidão de negros e as mulheres não poderem votar.

Gostaria que, numa próxima festa de aniversário na escola, houvesse a preocupação de oferecer opção vegetariana e vegana às crianças, tanto quanto hoje se oferece atendimento prioritário a um idoso, gestante ou cadeirante. Por uma questão de gentileza, respeito pelas diferenças e consciência ambiental.

Por amor à vida.

Abraços veggies!

Mayra C. Castro