sábado, 14 de fevereiro de 2015

Sedentarismo ecológico

Fazer exercícios é prejudicial ao meio-ambiente: toma-se mais banho, lavam-se mais roupas.

 

escrito por Mayra Corrêa e Castro © 2015

domingo, 1 de fevereiro de 2015

Conversar com mulheres - aforismo

Nunca achei perda de tempo passar horas conversando com mulheres; com homens, ao contrário, acho mais prático ler uma revista de negócios.


escrito por Mayra Corrêa e Castro © 2015

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

O zen do exercício

No consultório do cardiologista, a pessoa comenta que faz 45 minutos de caminhada todos os dias. Então o médico pergunta "quantos quilômetros no total?", e ela responde "uns 2". "Mas isso não desenvolve sua capacidade cárdio-respiratória, é muito lento", rebate. O paciente, todo zen, responde "não, mas desenvolve minha paciência, o que é um antídoto pra muitos aborrecimentos do coração." 

escrito por Mayra Corrêa e Castro (c) 2015

sábado, 4 de outubro de 2014

Regozije-se por viver numa nação democrática!

Amanhã é um dia histórico, como, regularmente, tem ocorrido há 25 anos no Brasil, desde a primeira eleição presidencial direta, em 1989.

Diretas Já, Impeachment do Collor e 20 Centavos são 3 momentos lindos de nossa história recente.

Então nossa democracia tem apenas 25 anos de idade. Com 25 anos, é-se maduro o suficiente pra saber que não dá pra ficar sob a asa dos pais, mas ainda se tem receio de abandonar a segurança.

Vejo o Brasil assim: um tanto mimado, achando que o Estado deve prover, um tanto petulante, achando que dá conta sozinho de se bancar.

Mas o bacana de ter 25 anos são os ideais no coração.

Abrace um ideal. E vote nele! Amanhã é um dia histórico. Regojize-se por viver numa nação democrática!

Não crie inimigos apenas porque votam em partidos diferentes. Use as diferenças como oportunidade para cultivar amigos. Com 25 anos, já dá pra saber que a coisa mais importante do mundo é amar e ser amado.

Boas eleições a todos nós!

 

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escrito por Mayra Corrêa e Castro © 2014

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Debate presencial 2014

 

- Jornalista pergunta: Marina Silva, você prefere catchup ou mostarda no seu sanduíche?

- Marina responde: Eu estou cansada desta polarização entre temperos vermelhos e temperos amarelos. Há um novo jeito de temperar sanduíches no século XXI: prefiro maionese.

- Luciana diz: maionese, catchup e mostarda, todos fazem mal ao povo.

- Eduardo diz: temos que descriminalizar a larica: quer comer catchup coma, quer comer mostarda coma, quer comer maionese coma.

- Aécio: temos que lembrar que a Heinz só vende maionese gourmet no Brasil porque FHC criou as condições pra que isso ocorresse.

- Pastor Everaldo: eu já nem tive sanduíche pra comer, irmão e irmã, mas hoje como sanduíche com mostarda, com catchup, com maionese.

- Levy: que sanduíche?! O Brasil faliu, caros candidatos, não há mais sanduíches.

Enquanto isso, Dilma está comendo o sanduíche.

 

escrito por Mayra Corrêa e Castro © 2014

quinta-feira, 3 de julho de 2014

O brega da Copa

Sempre achei as metáforas futebolísticas ruins. Tá, estou de mau-humor: elas não são ruins, elas são rasas. Esta coisa de comparar os lances da vida aos de uma partida – céus! eu disse lances?! – é de um tédio só.

Mas na Copa em que todos podemos postar nossas próprias propagandas nas redes sociais, no Adwords e no Mail Chimp, a eclosão de motes publicitários futebolísticos está extrema. Resultado: slogans, assuntos de email e chamadas bregas, profundamente bregas.

Fiz uma seleção (gente! isto está insuportável: eu disse “seleção”?!) do que chegou até mim:

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Aí estão as chamadas mais óbvias, que você não crê que alguém teve coragem de usar de novo: Goleada de ofertas, Ganhe 5% de desconto a cada gol do Brasil, Seleção Sephora, Adega Brasil está na torcida, Você está convocado!, Gol de placa Azul, Saiu a escalação da seleção Zocprint, Oferta campeã Goleada cultural, Entre em campo com a GVT HDTV e A GVT tem uma convocação especial para você.

As que se acham bem criativas e engraçadinhas: já pensou depois da Copa? e Imagina na Copa!

Ah, sim, aquelas que se acham muito inteligentes e já querem desovar o estoque: Uma Copa do Mundo pra recordar.

Tem também as caronistas, aquelas que não ligam tanto assim pro futebol, mas querem aproveitar o embalo: Futebol que nada. Eu quero é corrida! e Lugar de sua a camisa é na rua!.

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Essas aí em cima são das querem parecer chiques a todo custo – só que não.

Concorde comigo: publicitários seriam capazes de fazer anúncios menos chinfrins, não seriam?

Finalmente, há o grito dos agonizantes, que usam o futebol como último recurso pra chamar clientes:

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Conclusão pessoal: durante a Copa, o melhor anúncio será aquele que a ignorar solenemente.

 

escrito por Mayra Corrêa e Castro © 2014

domingo, 29 de junho de 2014

Lemos quanto de 2007 pra 2011?

Fuçando mais detidamente os dados do relatório do Retratos da Leitura no Brasil 3, pesquisa publicada pelo Instituto Pró-Livro em agosto de 2012, achei dados muito desanimadores pra todos que amamos ler.

Fiz um resumão. Vá lendo:

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Tamo mal na fita: Sul perde em termos percentuais na quantidade de leitores pra todas as regiões do Brasil e, em números absolutos, estamos em antepenútimos. Isso porque somos a região menos desigualdade no país e com a população mais longeva.

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E estamos todos lendo menos apesar do governo federal comprar zilhões de livros pra escolares, programas de leitura e afins. Bão, bem bão. Um país se constrói mesmo com o quê? Homens e livros? Talvez homens e tablets...

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E este quadro é ótimo: autores e livros mais admirados pelos brasileiros de 2007 pra 2011: se não contei errado, apenas 3 mulheres entre 25 autores; e 4 livros escritos por mulheres, sendo apenas 1 deles por brasileira. É muito conveniente dizer que não existe literatura feminina.

O consolo é que 2 autoras sao de um sucesso estrondoso no mundo todo: Stepheni Meyer e J.K. Rowling.

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E algo no mínimo curioso: todo mundo diz que tá lendo menos porque não tem interesse por livros, mas todo mundo diz que lê por prazer. Fiquei confusa.

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Obviamente, lemos mais em casa. Porquê: faltam bibliotecas, no ônibus ou metrô não tem nem como segurar um livro, em consultórios só tem revista Caras velha ou aquelas chatíssimas tipo Bem Estar.

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E uma informação fofa: mamães!!! Somos nós, no pau a pau com professores, que influenciamos o que nossos filhos leem. Entao! É que nem comer verdura e fruta: se você não come, não adianta reclamar que seu filho só quer macarrão e batata-frita.

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Mais uma informação divina: ganhar livro de presente estimula o hábito de leitura, mas ninguém dá livro de presente. Pronto! Já sabem o que dar no próximo aniversário, né?!

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Mais uma: o jeito mais comum de ler um livro é comprando um, mas ninguém compra porque é caro, e ninguém tampouco frequenta bibliotecas públicas. Agora, por que não frequenta eu sei: porque elas emendam o feriado quando todo o comércio em volta tá aberto.

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E na lanterninha, o Sul é a região onde se vai menos a bibliotecas. Eita.

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E nem podemos dizer que a culpa de tão pouca leitura é da internet. Lê-se pouco porque se lê pouco mesmo. Livros digitais? Quê? Existem?

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E apesar do auê em torno deles, os brasileiros acreditam mesmo é no livro de papel (mas que também não leem).
Resumo da ópera: livro que é bom, num Brasil de todos, por enquanto, é realidade que ainda não saiu do papel.

 

escrito por Mayra Corrêa e Castro © 2014

terça-feira, 17 de junho de 2014

De como melhorar o voto.

Na hora do voto, ninguém – nem o mais esquerdista dos esquerdistas – pensa no outro. Todos pensam em si. Nem preciso gastar muito verbo pra explicar isso, mas vamos lá.

Você vota naquilo que crê. E a única coisa em que você realmente acredita é em si, nos seus valores e na sua criação.

Quando se vota, apenas aqueles dotados de espírito muito abnegado poderiam votar pensando no bem dos outros. Mas é um engano: quem vota achando que é para o bem dos outros na verdade está satisfazendo a um conceito de si como alguém que pensa no bem dos outros.

É por isso que acho duas coisas básicas a respeito de eleições:

- Só há votos hipócritas ou votos cínicos;

- Para votarmos melhor, todos deveríamos fazer psicoterapia.

A psicoterapia pode tirar a motivação de nossos votos do jugo da hipocrisia e transferi-la para o jugo do cinismo.

Mil vezes um cínico a um hipócrita! Um cínico pode ser levado à verdade, mas um hipócrita não. Um hipócrita se desvia da verdade, mas um cínico monta sobre ela.

É mais fácil lidar com um rico cínico que com um rico hipócrita; mais fácil lidar com um pobre cínico que com um pobre hipócrita. É mais rápido negociar com eleitor cínico, que com eleitor hipócrita; com político cínico, que com político hipócrita.

Quandos as motivações por trás de todo e qualquer voto forem terapeutizadas, estaremos no terreno amargo do cinismo. Cada um votará tão somente pensando si. Teremos tantos votos diferentes quantos forem os números de cínicos eleitores de um país. E como se instaurará algo impossível de ser feito – um governo que reflita um e cada um – teremos que aprender a pensar no outro.

A Copa passará

Com assombro constato que já vivi dez Copas. Oito, pelo menos, com idade suficiente para saber o que se passava. E duas em que o Brasil foi campeão.

Do alto, portanto, das minhas dez Copas, digo: nenhum delas mudou nada, nem um tiquinho, nadica mesmo a minha vida.

Por certo renderam algumas lembranças – você me diria. Sim, renderam. Mas nenhuma lembrança que seja mais feliz que meu primeiro beijo, que o dia em que passei no vestibular; quando consegui o primeiro emprego, o segundo e finalmente o terceiro, mais desejado. Nenhuma que fosse tão intensa quanto recordar as vezes sem fim em que fiz amor com quem amo, ou o nascimento do meu filho mais velho, do filho mais novo. Nenhuma superou a lembrança da primeira cerveja que tomei com minha amiga de faculdade, o porre que tomei na sua festa de formatura, ou o quentão que tomamos na festa junina de nossos filhos.

O tetracampeonato, o penta – nada, não alterou em nada minha vida.

Por isso que sou tão indiferente à Copa. Patriota pouco me importa dizerem se sou ou não. Gerações antes de mim disseram que amaram o Brasil, gerações futuras dirão “eu te amo”. Sempre haverá quem o ame mais que eu, mas pagaremos ambos a mesma quantidade de impostos, trabalharemos ambos a mesma quantidade de horas, seremos enterrados na mesma terra. Nossos passaportes pedem os mesmos carimbos. Deixe-me recordar meus beijos, minhas noites de amor.

E quando, já mais velhos, lendo Quintana numa cadeira de balanço – depois de vinte Copas! – ,  diremos (sem contudo a delicadeza dele), “tudo isso passará; nós, cocô de passarinho.”

Versinho de São João

 

Amo festa junina,

desde miudinha.

Quadrilha, pinhão com sal,

amo mais que carnaval.

É que sou caipira pira pora;

meu samba, moda de viola.

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Apocalipse/Pólvora

 

Apocalipse 1

Quando acordou, o dinossauro não estava mais lá.

 

Apocalipse 2

O apocalipse não veio e morreram todos de desgosto.

 

Apocalipse 3

Deus e o Diabo brigavam pela primazia do apocalipse, veio o homem e passou na frente.

 

Pólvora/Apocalipse

Apocalipse: muita, mas muita pólvora.

 

Pólvora 1

Ingerir pólvora não faz um grande efeito. Pra isso é necessário estar com queimação no estômago.

 

Pólvora 2

A notícia caiu como uma explosão no mar quando, carregado de pulseiras nos tentáculos, o polvo disse que na verdade era uma pólvora.

 

Pólvora 3

Pólvora: um polvo que saiu do armário.

 

escrito por Mayra Corrêa e Castro ® 2013

 

Microcontos escritos durante exercício com as palavras “apocalipse” e “pólvora” na Oficina Literária com Marcelino Freire – Semana Literária SESC 2013 – Curitiba – 19 e 20/set.

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

O primeiro

Já passei por algumas oficinas literárias. Escritores desta época, que as conduzem, têm nomes comuns.

É assim que, entre eles, compareceram dois Joões, o Carrascoza e o de Castro Rocha. Também houve dois Josés, olhe só: o Castello e o Torero. Estive com um Luiz, o Ruffato, e um Sérgio, o Vilas-Boas.

Mas nunca tinha tido, por professor, um nome tão singular quanto Thelonius.

Sim, isso mesmo; não surtei: Thelonius Monk, o pianista, abriu três dias de oficina com sua música.

Colocaram um show seu, gravado em DVD, para tocar na sala, e o convite foi pra que aprendêssemos escrever com ritmo, harmonia, melodia e cadência.

Enquanto conversávamos sobre nossas crônicas, o piano continuava baixinho, não atrapalhava. Antes, era um charme. Numa sincronia misteriosa, que só ocorre em oficinas de escrita criativa, coincidia o momento em que Thelonius saía do piano e um de nós lia o próprio texto. Parecia que parava só pra nós.

Foi, de longe, o laboratório de escrita mais criativo de que participei.

Ao final, posamos para a foto, alunos e maestro agrupados. Ah, não te falei?!

O jazz se faz de improvisos, mas uma oficina requer um escritor experiente:

De nome comum, como os demais, o mestre Antônio Torres sorria para a câmera ao nosso lado.

Foi meu primeiro Antônio. E o primeiro a gente nunca esquece.

escrito por Mayra Corrêa e Castro ® 2013

para a Oficina de Crônicas com Antônio Torres

Agosto de 2013 – Biblioteca Pública do Paraná – Curitiba/PR

quinta-feira, 20 de junho de 2013

É por 20 centavos, sim, dá licença?!

Novamente estão zombando da classe média no Brasil. Novamente estão querendo dizer que as manifestações que explodiram, em todo o país, a partir do aumento da passagem de ônibus na cidade de São Paulo, são ilegítimas, feitas pela elitezinha de direita.

Num post, li que essas manifestações não são nada perto dos verdadeiros movimentos sociais que ocorrem nas periferias das cidades, ou nos rincões agrícolas, esses, sim, oriundos do verdadeiro povo que sofre.

Noutro, li que as pautas que estão surgindo, como “fim da corrupção”, “impeachment da Dilma”, “contra impostos” são reacionárias.

Acho lamentável que a classe burguesa brasileira tenha, em algum momento de sua parca trajetória de vida, assumido culpa por pagar plano de saúde, por pagar escola particular, por pagar IPVA e por pagar Imposto de Renda.

Acho doloroso que, em algum momento surreal na história do Brasil, pessoas que trabalham 8 horas por dia, gastam 30% do que recebem com moradia, 10% com educação, 10% com transporte, 20% com alimentação e 20% com saúde, sejam incitadas a pensar que estão na dívida com os oprimidos.

Acho uma pena que a classe média, no Brasil, seja forçada a acreditar que tem o que tem (nossa, e deve ter um tantão mesmo, não?!) porque nasceu em condições favoráveis.

Acho um escândalo que sejamos obrigados, por uma questão de não ofender os que têm menos dinheiro que nós, assumirmos que essas manifestações não sejam por R$ 0,20. Eles (os críticos) devem pensar que reclamamos de barriga cheia.

Em primeiro lugar, o verdadeiro povo brasileiro somos todos nós, os mais ricos, os mais pobres, os nem tão ricos, os nem tão pobres, os mais pra ricos, os mais pra pobres e o restante que tá na média alta, na média média e na média baixa. Não existe um verdadeiro povo brasileiro.

Os ricos argumentariam que, se não fosse por eles, não haveria empresas que geram empregos para os pobres e pros média, divisas pra investir em programas sociais pros pobres e financiamentos pros média.

Os pobres argumentariam que, se não fosse por eles, não haveria mão de obra que tornam os ricos mais ricos e os média menos média.

Os média argumentariam que, se não fosse por eles, não haveria arrecadação de impostos que geram os programas sociais para os pobres e que geram fundos para financiamento das empresas dos ricos.

Quem tem razão? Todos têm.

Está na hora de vivermos com a cabeça de século XXI. O mundo é complexo demais para as relações serem polarizadas. Não existe mais essa coisa de explorador e explorado. Todos somos o tempo todo explorados, e também os exploradores.

Sob um ponto de vista, um funcionário público que goza de licença prêmio remunerada é tão burguês quanto um dono de negócio.

Sob um ponto de vista, um pobre que, empregado numa indústria, arruma “papel do postinho de saúde” pra poder fazer bico como servente ou diarista é tão corrupto quanto um vereador que usa o carro oficial pra levar a filha na escola.

Sob um ponto de vista, um rico que coloca dinheiro na campanha de um candidato à presidência é tão interesseiro quanto um professor de rede pública que vota no candidato que promete aumentar o salário da sua categoria.

No mundo atual, é muito, muito difícil classificar bons e maus apenas pela ética. O único critério que talvez não dê margens para dúvidas sejam agressões contra o corpo e a vida de alguém, agressões literais, do tipo assassinato, mutilações, pancadas, negação de cuidados médicos.

Quando a classe média quiser brigar por R$ 0,20, qual é o problema? Não, falo sério, qual é o seu problema com a classe média levantar a bunda do Facebook e ir pras ruas exigir o que ela acha de direito?

Por que, no Brasil, apenas os sem teto, os sem terra, os sem salário podem ir pras ruas? Que tipo de miopia você tem que não enxerga que as reivindicações, depois do século XX, são plurais mesmo? Cada um, hoje, fala por si. Inclusive você, que acha que está falando pelos outros, fala por si, para aplacar a revolta que o corrói por dentro e faz com que você queira dedicar sua vida àqueles que não têm o mesmo que você.

Vamos assumir de uma vez por todas que somos intrinsecamente individualistas. E que não há o menor problema em sermos assim.

Individualistas estão, hoje mesmo, dando voz aos animais que não têm voz própria para lutar por seus direitos. Qual é o sentimento que move esses ativistas vegans? Querem proteger aqueles que amam.

Individualistas estão, hoje mesmo, reivindicando a reintegração de posse a povos indígenas. Qual é o sentimento que os move? Querem sentir que a justiça está sendo feita.

Individualistas estão, hoje mesmo, doando trabalho voluntário na ressocialização de drogados de rua? Qual é o sentimento que os move? Querem tornar a vida algo que valha a pena.

Se as reivindicações lhe parecem reacionárias, olhe para as que você faz, que, certamente, na visão dos que não são alvo delas, são tão excludentes quanto as que estão sendo manifestadas hoje. Nenhum ser humano merece menos do que o outro.

Se lhe incomoda o tom ufanista dessas manifestações, tenha compaixão. Muitos dos que estão na rua nasceram na virada deste século. Não estão fazendo por mal, não querem ofender, não querem desvalorizar o tanto que sua geração fez por este país. Mas eles viverão mais tempo que nós, nesta pátria, a contar de agora; e o Brasil deles realmente é uma porcaria, vamos concordar: tem inflação (nós sabemos viver com inflação, eles não), tem corrupção impune, tem governantes que não os representam, tem um sistema político e tributário fossilizados e, pior, parece não ter solução, parece ser disso pra pior.

A gente tem mais é que gritar junto, apoiá-los. Reprimir e ridicularizar é o modo como fomos educados no século XX. Arrume outro discurso, outro jeito de criticar.

Coloque mais neurociência na sua sociologia; mais física quântica na sua matemática; coloque mais verde na sua massa cinzenta.

Deixe que este seja um país onde é legítimo qualquer cidadão brigar por R$ 0,20. 

escrito por Mayra Corrêa e Castro ® 2013

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Carnachuva na Chuvitiba de zumbis.

Quando dois amigos fluminenses foram ao show da Mart´nália em Curitiba, vieram comentar – não sem modéstia – que curitibano não sabe sambar. Não é um pecado da genética polaca da cidade: no Rio, louras imaculadas sambam também. É uma falta de jeito mesmo.

Daí que só podemos agradecer à chuva e ao frio que cai sobre a cidade neste Carnaval. Estamos livres do vexame de ver curitibano sambando na rua. E sambam? Sambam, pois que sambam. Sambam como japoneses, alemães, norte-americanos e ingleses. Não reviram os olhinhos, não remexem as cadeiras, e jamais, em tempo algum, acham-se filhos de São Salvador.

Mas fazem barulho. Os poucos que, desinibidos, saem; esses fazem barulho. É privilégio curitibano sambar embaixo de chuva constante, fazendo ensurdecedores xóqui xóquis a cada pisada no chão empoçado. Nenhum samba no pé, em parte alguma do Brasil, espalha mais água por centímetro quadrado.

É que o Carnaval de cá é uma mistura decente de brasilidade com Gene Kelly: a música tem tamborim, mas a indumentária, o cenário e os efeitos sonoros são cópia da famosa cena do filme Cantando na Chuva.

Meus amigos também repararam que damos azar: sempre chove no Carnaval. Precisei corrigi-los. Em se tratando de feriado com data móvel, não é azar – é fato consumado: em Curitiba, como chove de fevereiro a março, só se o Carnaval fosse comemorado em Dia de São João para não estar chovendo. Mas então teríamos frio. Aquele frio de lascar, que não combina em nada com samba, suor e cerveja, pra nem citar mulher pelada, que não se veria de qualquer modo por aqui, nem no verão, muito menos no inverno.

O que fizemos então para lidar com um Carnaval molhado e falta de ginga? Inventamos uma Zombie Walk, uma folia com pessoas fantasiadas de mortos-vivos, maquiados como se tivessem levantado naquela manhã da própria tumba, seus corpos ensopados sendo expulsos de covas inundadas.

No ano passado, 4,5 mil zumbis apavoraram qualquer intenção que Momo tivesse de estender o reinado por aqui. Ao som de guitarras rockeiras, baterias histéricas e baixos sombrios, dançaram seu peculiar Carnaval curitibano. E quando a terça-feira ia se esvaindo em chuva, não houve lamento: na tumba em que vivem, não apenas a quarta, mas todos os dias são de cinzas.

escrito por Mayra Corrêa e Castro ® 2013

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Empreendedores, só que não.

É um troço intrigante que eu receba no email muito mais orçamentos que não solicitei sendo que, para os solicitados, sequer um telefonema. Pesquisas dão conta de que o brasileiro é um dos povos mais empreendedores do mundo. Mas, se for, inverteu tudo que é apregoado nos manuais de boas práticas administrativas. Quando a história chega no quesito vendas, brasileiro adora vender, mas só pra alguém que não queira comprar.

Se você, meu chapa, for do tipo cliente que quer comprar, se lascou-se. Pode telefonar, pode enviar email, pode ligar de novo. Não adianta, não vão lhe responder. Cliente que quer comprar, no Brasil, se transmuta num tipo odiento conhecido pelo nome de pidão. Pidão.

Aí você sabe como é que é: o pidão pede ajuda, explicações, quer agendar visita em casa, ou quer ir até a loja, via de regra não entende o que está comprando, então toma tempo atendê-lo. Achei que a internet fosse aliviar um pouco o trabalho duro de vender serviços ou produtos que exigem orçamento. Mas nada!

Do outro lado do micro, é email que não chega, que vai pra caixa de lixo eletrônico, que deletam porque supunham já respondido. É notebook que dá pau, é o raio da puta que o pariu que caiu em cima da cabeça do vendedor e ele morreu e ninguém acha o arquivo que ele tinha deixado pronto com os seus dados.

Brasileiro, na era da internet, gosta de vender assim: manda um spam e quem cair na rede é peixe. Moleza. Dizem que brasileiro é empreendedor, só que não.

escrito por Mayra Corrêa e Castro (r) 2013

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Por preferir Balzac

Estávamos no Banco da França. Eu não era ninguém, ele era Balzac. Não tinha sido um acaso. Quão poucas coisas podemos reputar ao fortuito! Literatura é ficção científica: eu havia retrocedido anos nos séculos, ele avançado outros tantos, e, portanto, estávamos juntos ante aquela instituição.

- Vim saldar sua dívida, Balzac!, falei.

- Mas por quê?, ele perguntou. Após tantos séculos, será que tinha perdido, afinal, o despudor de emprestar dinheiro? Respondi-lhe que o fazia porque ele precisava ser quem gostaria de ter sido, um homem rico.

Nesse momento, notei um sujeito mais baixo entrando pela porta ao nosso lado. Correu para dentro. Segui-o com o olhar. Reconheci-o antes que fosse cumprimentado pelo gerente. Era Flaubert, o pai. Intuí que tinha vindo sacar de sua poupança, de letras que rendiam tantos juros. Tomei o cotovelo de Balzac, apontando-lhe a porta:

- Entremos, e o dirigi para dentro.

Foi penoso pagar a dívida e ver meu herói fenecer ao meu lado. Eu queria salvá-lo, mas aquilo lhe caía como derrota. Não percebi inicialmente que ele ficava olhando para o outro escritor, o que dissera “que homem teria sido Balzac se soubesse escrever”.

Disfarçadamente, anotei um bilhete e pedi ao gerente que o levasse a Flaubert. Quitada toda a dívida de Balzac, saí com ele do banco. Desejei-lhe boa sorte. Queria um abraço, mas não me pareceu adequado. Ele estava cansado, ou conformado. Não iria contrair mais dívida alguma.

E o bilhete? Quando Flaubert o abrisse, naquele momento ou séculos depois, veria: “A leitora sou eu.”

 

Nota para esclarecimento: Talvez não seja de seu conhecimento que, além de autor de grandes romances, Balzac foi autor de numerosas dívidas. Muitos de seus livros foram escritos com o intuito de transformá-lo num homem rico e há cartas onde ele escreveu que queria empreender ao menos uma vez corretamente para poder deixar de escrever. Balzac foi o primeiro romancista que trouxe a questão do dinheiro na sociedade francesa em transição de um modelo monarquista e nobre, para um modelo republicano e burguês. A consciência que tinha da importância e iniquidade do dinheiro foi que tornou seus romances tão famosos e sua vida tão arduamente construída. Balzac foi um operário das letras – talvez o primeiro. Enquanto isso, Flaubert, uma geração posterior, amealhava o reconhecimento público, em vida, que Balzac almejou. A declaração de Flaubert sobre Balzac, se não for verdadeira, tem chance de sê-lo, pois quem a cita é Umberto Eco, na página 175 de Não Contem com o Fim do Livro. E o bilhete entregue a Flaubert, nessa crônica, remete à famosa declaração do autor sobre sua obra máxima: Mme. Bovary c´est moi, ou seja, Madame Bovary sou eu. Flaubert é considerado o pai da modernização do romance.

 

escrito por Mayra Corrêa e Castro ® 2012

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Banho de gato

– Por que demorou tanto no banho?
– Tava tão gostosinho...
– Já não falei pra não demorar?
– ... falou.
– Então por que demorou?
– Eu não te ouvi chamando.
– Mas não tenho que chamar, você que tem que sair.
– Mas como é que vou saber se você não chamar?
– ...
– Viu, nem você sabe.
– Deixe eu ver se lavou o cabelo direito.
– Tá bom?
– Vem perto, deixa eu ver. Hum. Tá.
– Quer ver atrás da orelhinha também?
– Quero. Vira. Hum. Tá.
– Viu?
– Vi.
– E agora, posso ver TV?
– Cê lavou o bumbum?
– Eu já tinha limpado com papel.
– Cê entrou no banho e não lavou a bunda?!
– Você diz no lado ou lá no fundinho?
– Cê não tinha feito cocô antes do banho?
– Tinha.
– E não lavou direito?
– Esqueci... Tem problema?
– Tem. Já pro banho de novo.
– Mãe, pode deixar que agora não esqueço de passar sabonete no corpo.

escrito por Mayra Corrêa e Castro ® 2012

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Vovó Dilma

Senhora Dilma,

a professora pediu que agente escrevesse uma cartinha falando dos problemas do Brasil. Ela disse que as melhores cartinhas ia mandar para você.

Como eu gosto muito do Brasil, só não gosto da pobreza, dos bandidos e de quando o Brasil perdeu na Olimpíada eu escolhi falar de um problema que a minha mãe fala.

Ela vive dizendo que os avós não são mais como antigamente. Acho que ela reclama quando a vovó não pode me buscar na escola porque precisa trabalhar.

A vovó tem 60 anos. A vovó já devia estar aposentada a mamãe diz, mas ainda está trabalhando. Quando agente está de férias, a vovó também não pode ficar com agente, porque daí a vovó fala pra mim que ela agora é que precisa de férias que está muito cansada.

O papai também acha que nem a mamãe e diz para mim que a vovó trabalha tanto porque a aposentadoria que o governo dá pra ela é uma mixaria.

Como a mamãe falou do governo, eu aí pensei vou contar pra senhora.

A professora disse que você também tem netinho. Ela me disse que você é ainda mais velha que minha vó.

Daí eu queria perguntar se você também não pode buscar o netinho de você na escola porque o governo está te dando muito pouco dinheiro e você teve que ser presidente para ganhar mais?

Um abraço, Felipe Nunes (9 anos).

 

escrito por Mayra Corrêa e Castro ® 2012

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Autobiografia numerológica

Sou dada a numerologias. Aos que também têm a mania, escrevo logo meu nome. O de batismo: Mayra Corrêa e Castro.

Sim, eu sei, há um Y. Um Y, como Pitágoras advertiu, dificulta um pouco as coisas. Olhe o formato dele, um caminho bifurcado. Querem dizer que o Y faz a pessoa mudar muito de caminho até achar o seu. Veja por onde ele me levou até agora, idade de 39:

– Nasci paulistana, cresci joseense até os 18, estudei-me campineira dos 19 aos 22, vivo curitibana desde os 23.

– Formei-me linguista por 4 anos, trabalhei marketeira durante 10, subsisti professora de yoga por 9, ensino aromaterapia há 5, agora quero escrever.

– Aos 13 conheci meu atual marido. Temos dois filhos paranaenses, um nascido no Norte, outro mais pro Sul.

– Tomei leite materno, comi carne de vaca; hoje não quero mais nada da vaca, nem do boi nem dos bezerros: vegetariana há 12 anos.

– Estudei francês aos 11, aprendi alemão aos 17, fiquei no inglês até os 27. Alemão já não sei, quero aprender o espanhol.

Astrologia estudei em adolescente. Num ano de energia 7, o número do stress, fui aprofundar a numerologia e tive meu primeiro espanto: eu não era uma alma que vibrava a energia 8. O 8 do business, da autossuficiência, do mata a cobra e mostra o pau. Todo 8 tem orgulho de ser quem é. Eu tinha feito as contas errado.

Minha alma, em realidade, vibra dois números (praga do Y?), ora a energia do 33, ora do 6. O número mestre 33, idade de Cristo, mas que já foram logo avisando, uma energia muito sublime pra reencarnar nestes fins de era. (Do 33 talvez tenha herdado a facilidade de escrever.) Já a energia 6, essa é perfeitamente assimilável: meiguinha, amiguinha, queridinha. E insegura.

O insegura é que foi um choque pra quem se achava 8.

Mudou tudo. Ressignificou tudo. Sei que é besta, repensar quem somos a partir de um número, mas não é sempre assim? Com 1 ano, sua preocupação é perder o seio da mãe; aos 13 é ter seios iguais aos dela; aos 30, ser o seio dos filhos; aos 39 ainda os ter desejáveis; pra frente, que não lhe apareçam caroços neles.

Um dia me contaram que o Y sempre respinga no mapa numerológico, que sua vibração nunca é superada.

Mas achei outro jeito de lidar com ele: em vez de lamentar os desvios no caminho, resolvo encarar o Y como um funil, por onde as experiências diferentes que tenho na vida vão escoando. O funil é estreito; elas escoarão, portanto, lentamente – e assim arrasto o fim desta autobiografia pra um número, oxalá, próximo de 100.

escrito por Mayra Corrêa e Castro ® 2012



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terça-feira, 28 de agosto de 2012

Joyce revê Paulo Coelho

Parece improvável, mas recentemente o escritor brasileiro Paulo Coelho provocou literatos no mundo inteiro ao dizer que o clássico livro de James Joyce, Ulysses, caberia em 140 caracteres do Twitter. As reações dos fãs de Joyce foram indignadas, ainda mais porque, comparados os talentos literários de um e de outro, Paulo Coelho costuma ser desclassificado da categoria escritor.

Paulo Coelho, indiferente às comparações, postou o tuíte-resumo da obra-prima. Muitos avaliaram se foi válido ou não. Mas fiquei curiosa do que teria pensado o próprio Joyce, e ele me disse:

"O Alquimista, 65 milhões de livros vendidos. O quinto livro mais vendido no mundo. Harry Potter vendeu 400 milhões, mas eram 7 volumes. Vêm em terceiro lugar. O quarto é ocupado por O Senhor dos Anéis: 103 milhões. Só que são 3 volumes. O primeiro e o segundo lugar, ocupados, respectivamente, pela Bíblia e O Livro Vermelho de Mao Tse-Tung não valem: foram escritos por deuses. Bem, um nem tanto deus. Mas esse quinto lugar, ocupado na condição de livro sozinho, o autor desse aí tentou me pegar.

Aceito que tenham saído em minha defesa. Fico lisonjeado que meus fãs tenham dito ser impossível reduzir-me a um – como se chama mesmo este estranho mecanismo de forçar a criatividade que vocês criaram neste século? Ah, sim –, reduzir-me a um tuíte. Também acho prepotente: Ulysses em um tuíte.

Mas de certa forma me pareceu justo: se eu transformei um dia em dezenas de horas de leitura, é razoável que tenham transformado centenas de dias de meu esforço numa leitura de segundos. É uma transformação que se pode chamar de alquímica.

Enganam-se se acham que fiquei incomodado com isso.

Em realidade, diverti-me: se o tuíte tivesse vindo do autor do primeiro livro mais vendido, eu correria o risco de virar Verdade; se tivesse vindo do segundo, viraria revolução; se viesse da terceira autora, viraria fantasia; do quarto, loucura. Mas vim do quinto, e virei provocação.

Quer saber? Foi o único revisor diferente que em verdade tive. Antes dele, só eu havia cometido a insanidade de reescrever e revisar meus textos.

James Joyce"

 

escrito por Mayra Corrêa e Castro ® 2012