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sábado, 4 de outubro de 2014

Regozije-se por viver numa nação democrática!

Amanhã é um dia histórico, como, regularmente, tem ocorrido há 25 anos no Brasil, desde a primeira eleição presidencial direta, em 1989.

Diretas Já, Impeachment do Collor e 20 Centavos são 3 momentos lindos de nossa história recente.

Então nossa democracia tem apenas 25 anos de idade. Com 25 anos, é-se maduro o suficiente pra saber que não dá pra ficar sob a asa dos pais, mas ainda se tem receio de abandonar a segurança.

Vejo o Brasil assim: um tanto mimado, achando que o Estado deve prover, um tanto petulante, achando que dá conta sozinho de se bancar.

Mas o bacana de ter 25 anos são os ideais no coração.

Abrace um ideal. E vote nele! Amanhã é um dia histórico. Regojize-se por viver numa nação democrática!

Não crie inimigos apenas porque votam em partidos diferentes. Use as diferenças como oportunidade para cultivar amigos. Com 25 anos, já dá pra saber que a coisa mais importante do mundo é amar e ser amado.

Boas eleições a todos nós!

 

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escrito por Mayra Corrêa e Castro © 2014

terça-feira, 17 de junho de 2014

De como melhorar o voto.

Na hora do voto, ninguém – nem o mais esquerdista dos esquerdistas – pensa no outro. Todos pensam em si. Nem preciso gastar muito verbo pra explicar isso, mas vamos lá.

Você vota naquilo que crê. E a única coisa em que você realmente acredita é em si, nos seus valores e na sua criação.

Quando se vota, apenas aqueles dotados de espírito muito abnegado poderiam votar pensando no bem dos outros. Mas é um engano: quem vota achando que é para o bem dos outros na verdade está satisfazendo a um conceito de si como alguém que pensa no bem dos outros.

É por isso que acho duas coisas básicas a respeito de eleições:

- Só há votos hipócritas ou votos cínicos;

- Para votarmos melhor, todos deveríamos fazer psicoterapia.

A psicoterapia pode tirar a motivação de nossos votos do jugo da hipocrisia e transferi-la para o jugo do cinismo.

Mil vezes um cínico a um hipócrita! Um cínico pode ser levado à verdade, mas um hipócrita não. Um hipócrita se desvia da verdade, mas um cínico monta sobre ela.

É mais fácil lidar com um rico cínico que com um rico hipócrita; mais fácil lidar com um pobre cínico que com um pobre hipócrita. É mais rápido negociar com eleitor cínico, que com eleitor hipócrita; com político cínico, que com político hipócrita.

Quandos as motivações por trás de todo e qualquer voto forem terapeutizadas, estaremos no terreno amargo do cinismo. Cada um votará tão somente pensando si. Teremos tantos votos diferentes quantos forem os números de cínicos eleitores de um país. E como se instaurará algo impossível de ser feito – um governo que reflita um e cada um – teremos que aprender a pensar no outro.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Eletrocutados – O Brasil não anima ninguém #1

O feliz do assalariado compra uma máquina de café expresso. Valeu a pena, pensa, antes pagava R$ 3,00 por um cafezinho decente, agora pode fazer seu próprio expresso em casa.

Na hora de ligar a máquina, sua animação cai: o plugue do aparelho não entra na tomada. As tomadas de formato antigo, que na hora de comprar a casa nova em 2010 pareciam boas – porque seus aparelhos domésticos eram todos velhos – , agora pareciam ruins. Ele xinga o empreiteiro, que deve ter colocado tomada nova só pra tirar o habite-se e depois trocou tudo na hora de vender.

Hoje não poderá provar o cafezinho. Terá que comprar um adaptador pro plugue da cafeteira. Isso o deixa um pouco aborrecido, pois dispenderá tempo, energia e dinheiro.

A mulher pergunta se não valeria a pena trocar logo a tomada, considerando que os aparelhos novos vêm com plugue padrão. Ele lembra a tostadeira para pães, que tem plugue antigo, e que sairia mais caro trocar o cabo de alimentação dela que comprar um adaptador pro plugue da cafeteira. Você não pensa direito, ela rebate, chateada que tenham uma tostadeira em tão mal estado de conservação. Calcula que será a próxima compra do casal e lembra que não precisam trocar o cabo da velha, basta comprar um adaptador pro padrão da tomada nova. Ele cede: vai instalar a tomada nova e comprará o adaptador pra tostadeira velha.

No dia seguinte, ele não instala a tomada. É cuidadoso, quer desligar o quadro de luz e só volta do trabalho tarde da noite, quando já tá escuro. Espera até sábado e troca a tomada logo depois do almoço, é coisa rapidinha, assim não precisa coar o café e eles podem tomar um expresso caprichado.

Tomada nova, depois de colocar o adaptador no plugue da tostadeira antiga, tenta plugar a máquina de café. Entrou?, pergunta a esposa. Puta que pariu, que merda é esta? Não entra, Gilza. A tomada não entra! Como não entra?, ela fala. Vê se tem o selo do INMETRO na embalagem da máquina? Ela verifica: tem. Por que não encaixa então? O adaptador da tostadeira, ele entra?, ela quer saber. Entra!

Com raiva, ele pega o carro, sai, gasta tempo, energia e dinheiro e compra um adaptador pro plugue da máquina de expresso. Já não está aborrecido, está furioso e questiona: se é padrão, como é que o plugue não entra na tomada nova?

Assim se passam alguns meses, aqueles adaptadores pendurados nos plugues da cafeteira e da tostadeira. O casal acredita que deve ter comprado uma máquina de expresso modelo antigo, quer dizer, que já devia estar embalada faz tempo e por isso não tinha ainda o plugue no formato novo – embora o plugue se parecesse exatamente com o formato novo, como eles pesquisaram na internet.

Quando compram uma nova tostadeira, têm certeza de que o plugue entra. É de manhã, sexta, o marido não saiu pra comprar pão fresco, porque ia estrear a tostadeira, esquentando o pão amanhecido.

Inacreditável! O plugue da tostadeira, que é novinha, lançamento 2012, não entra na tomada. Vou ligar no 0800; não, péra, tem que esperar até 9 horas senão ninguém atende. Liga você porque preciso sair pra trabalhar, ele pede à esposa.

- Alô! Sim, quero falar com o atendimento a clientes. É que comprei uma tostadeira… Qual modelo? Hum, tem escrito isso em algum lugar?… Vou ter que descer a escada pra ir na cozinha, você espera?… Tá, achei, é o modelo XPTO. O problema é que o plugue não encaixa na tomada. Se a tomada é no padrão novo? Sim, claro que é. Você vai me passar pro engenheiro responsável? Tá, espero. (…) Oi, bom dia. O que eu queria dizer é que a gente comprou uma tostadeira da sua empresa e o plugue dela é mais grosso que o buraco na tomada. Sim, a tomada é nova, trocamos nesta semana.

- Senhora, o que ocorre é o seguinte: a senhora terá que comprar um adaptador.

- Como assim, não é padrão?

- Pois é, é difícil pra gente também. O INMETRO tem um padrão com pino de calibre 4 mm pra aparelho que puxa menos de 1.500W e outro, de calibre maior, com 4,8 mm, praqueles que puxam mais.

- Ah, cê tá bricando! Quer dizer que a tomada era pra ser padrão, mas não é?

- Isso, infelizmente; fica difícil pra gente também; temos que pedir aos nossos clientes que comprem adaptador quando a tomada não encaixa.

- Caramba! Mas não era pra ser seguro? A gente sabe que usar adaptador com aparelho elétrico não é recomendado…

- Pois é. Alguém deve ter ganhado muito dinheiro com isso.

Gilza desliga o telefone. Vai e liga pro marido, pra lhe contar a história. Ele acha um absurdo. O novo Padrão Brasileiro de Plugues e Tomadas não é tão padrão assim e, a menos que você seja do ramo, nunca saberá se deve instalar uma tomada com furos de 4 mm ou de 4,8 mm de calibre, se é que esta distinção está afixada nas gôndolas que vendem tomadas .

Bebendo um expresso com os amigos de trabalho na cafeteria da esquina, ele conta a confusão. Já não está furioso. Está em choque. O Brasil não anima ninguém.

escrito por Mayra Corrêa e Castro ® 2012

baseado em inacreditáveis fatos reais

da série O Brasil Não Anima Ninguém

O Brasil não anima ninguém – a série

Em 05 de abril de 1993, o jornalista Daniel Piza entrevistava o pintor Iberê Camargo para a Folha de São Paulo. Falecido aos 79 um ano depois, o artista deixou um acervo de mais de 7 mil obras e era considerado, por muitos, o “maior pintor brasileiro vivo”.

Na entrevista, Daniel Piza menciona o epíteto, indiretamente perguntando se o pintor queria ter seu lugar na história. A resposta de Iberê colocou um ponto final na questão:

“O Brasil não anima ninguém. Enquanto conversamos, o rio Guaíba aqui fora está virando um córrego miserável, sujo, e ninguém faz nada. Eu estou na luta, é só.” (in: Perfis & Entrevistas de Daniel Piza, Editora Contexto, 2004)

Na sequência da entrevista, Iberê ainda declarou que o Brasil era um gigante com cabeça de galinha, lamentando o fato de que uma série que tinha pintado para arrecadar fundos para portadores de HIV não ter vendido bem.

De minha parte, acho que nada mudou muito de 93 para cá. Lamentavelmente, a única coisa que conseguimos enxergar com a estabilidade da moeda e o crescimento econômico foi a possibilidade de comprar mais e ganhar mais.

Já disse a alguns amigos que a pior lição dos últimos governos é que eles ensinaram, pelo exemplo, que é indiscutível termos direitos, mas é uma idiotice ter deveres. No século XXI brasileiro, pode-se sempre mais, nunca menos.

Abro meu blog de crônicas para a série “O Brasil não anima ninguém” em que vou escrever sobre assuntos que mostram que, em se tratando do governo e de seus fornecedores, Iberê Camargo continua tendo razão. O Brasil virou um país sem subtrações.

Iberê, também estou na luta.

escrito por Mayra Corrêa e Castro ® 2012

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Estão cobiçando minha lixeira.

Moro numa casa em uma rua que, até um ano atrás, era a coisa mais tranquila do mundo, exceto pelo movimento constante de carros, dado que a tal rua serve de contorno para uma via rápida.

Mas era uma rua boa, seja do ponto de vista da pessoa física, seja do ponto de vista da pessoa jurídica, porque me deixa perto de tudo e perto de meus alunos, além de prover dois lados de rua para estacionamento de carro.

Mas, ai, a rua se tornou cobiçada: em um ano, instalaram-se nela dois restaurantes, um deles que funciona dia e noite, e mais duas clínicas médicas. Para piorar a situação, constrói-se em sua esquina um prédio de sete andares cujo apartamento mais barato custará novecentos mil reais.

Se a rua é cobiçada, cobiçosos também se tornaram os guardadores de carros. Antes, vinham esmolar seu trabalho apenas à noite, na esquina oposta à minha, onde funciona uma movimentada pizzaria. Agora, vêm esmolar também durante o dia os trocados que os frequentadores dos restaurantes e das clínicas lhes deixam por "cuidarem" de seus carros.

A ganância é companheira do progresso e, ciente disso, restava-me lamentar apenas a perda da tranquilidade de oferecer aos meus alunos uma rua fácil para pararem o carro enquanto faziam sua aula de yoga. Por outro lado, pude me rejubilar por mais pessoas passarem em frente de meu estúdio, aumentando assim sua visibilidade.

Mas a cobiça entranhou-se nesta rua e agora maldigo suas influências nefastas, pois elas atingiram também a minha lixeira. Sim, a lixeira de metal pintada em creme que tenho mantido em bom estado de conservação na calçada em frente de minha casa e onde, todos os dias, deposito meu lixo orgânico e meu lixo reciclável para serem levados pelos pontuais caminhões desta Prefeitura.

Dá-se que esta lixeira fica na passagem de ida e na passagem de volta dos frequentadores dos tais restaurantes. Como o bom brasileiro tem por hábito tomar um cafezinho em copinho descartável após seu almoço e acha nisso tal prazer que o estende à rua enquanto caminha de volta a pé por ela; tais patriotas, querendo tomar parte no ato cívico de não jogar lixo na rua, descartam seus copinhos plásticos, esvaziados ou cheios pela metade, em minha lixeira. Gesto muito louvável este de não atirar os copinhos pelo chão!

Uma rua movimentada não apenas atrai a cobiça humana, mas decerto atrai a cobiça canina, pois que, de um ano para cá, mais cachorros pediram aos seus donos para passearem por aqui. Certamente, os cães gostam do movimento de tanta gente a estacionar e sair de seus carros, a andar para cá e para lá com seus copinhos de café e posso vê-los pedindo uivantemente aos seus donos para os levarem passear a um lugar mais "agitado".

Ah, pois sim que gosto de ver formosos cãezinhos badalando na calçada em frente de casa. Vez por outra, dão de fazer seu xixizinho no meu muro ou no pé da árvore que cresce na calçada, ou vêm fazer seu xixizinho no pé da cobiçada lixeira, já tão disputada pelos copinhos de café.

Os cães têm seus direitos e somos tão humanos quanto eles os são cães. Se nossa raça prefere fazer suas necessidades dentro de casa, tão melhor para eles, que ficam com todo o espaço de fora para as suas! Infelizmente para suas necessidades, elas não podem mais ser cobertas por terra, pois reduzimos os canteiros de terra em nossas calçadas e ruas e, sendo assim, coube aos tristes cães deixar que seus donos asseverem sua fama por serem eles pudicos ou não a respeito da exposição pública de suas fezes, conforme seu dono trata de recolhê-las ou não do meio da calçada. Neste ponto, creio que levamos vantagem sobre os cães, enquanto pudermos apertar uma descarga para fazer desaparecer aquilo que não digerimos.

Até este ponto de minha narrativa, tudo parece correto, pois que em Curitiba muitos são os donos que recolhem as fezes de seus cães e permitem a esta bela raça gozar da aprovação humana geral quanto aos seus hábitos defecatórios. Belo exemplo de comportamento cidadão recolher as fezes do próprio cachorro! Um ato venerável de seu dono e demonstração irrefutável de que se importa com a imagem de seu cão!

Mas, ai de novo de mim, minha lixeira, que, desconfio, deve ter sido recentemente pintada não com tinta látex, mas com tinta à base de ouro, é vítima da cobiça também destes saquinhos cheios de cocô, que preferem ser descartados nela que nas lixeiras das casas de seus donos!

Segue assim que, ao final de cada tarde, encontro em minha lixeira tantos tesouros adornando-a; ela, que, por si só, já parece ser o monumento mais desejado de toda a Barão de Guaraúna: encontro despejados nela copinhos de café, encontro saquinhos recheados de cocô de cachorro, encontro também restos de marmita e, pobre de minha reputação, latas e garrafas de cerveja que não me pertencem. Esqueci de comentar, mas minha lixeira fica no caminho de um estádio de futebol e, em dias de jogo, acaba sendo alvo também da cobiça de torcedores que querem apenas se aquecer com um traguinho de bebida.

Eu deveria me sentir afortunada por ter na calçada uma lixeira cobiçada por tanta gente, posto que ninguém prefere segurar seu copinho de café para jogá-lo na lixeira de seu próprio escritório, ou segurar o saquinho de cocô para jogá-lo no lixo de sua própria casa. Deveria me sentir afortunada por ter algo que tantos desejam! E, certamente, deveria ajoelhar-me no chão todos os dias, para agradecer, no final da tarde, de poder recolher de minha lixeira os dejetos de cidadãos tão conscientes de seu dever de não jogar lixo na rua! Poderia ser bem pior, eles poderiam jogar seus dejetos diretamente na calçada e, então, eu teria um trabalho maior ainda de recolhê-los!

Entretanto, sinto-me inclinada a ajudar estes cidadãos a se desapegarem de sua cobiça - minha lixeira - e penso seriamente em arrancá-la da calçada. Assim, contribuo para que as lixeiras dos escritórios e de outras casas não sofram de solidão por terem decaído na preferência de seus usuários. Devemos pensar no meio-ambiente e, com certeza, o desuso em que se encontram as lixeiras das outras pessoas pode colocá-las em risco de extinção! Seria um mal terrível e não quero ser acusada pela autoria!

E quanto aos cãezinhos, ora, eles não precisam do pé de um lixeira para fazer seu xixizinho Meu muro é tão grande... Creio que serão até mais felizes sem a lixeira, porque não mais ficarão encabulados de ver suas fezes expostas assim no lixo alheio.

Mayra Corrêa e Castro

Curitiba, PR - 06/10/09